Rap & Hip-Hop
Written by Renato Rosche Tuesday, 11 January 2005 18:48
O discurso de grupos de rap, inseridos
completamente na cultura hip hop, como o dos paulistanos Racionais
MC´s, aponta para um quadro de violência horizontal. Não somente
violência entre classes, mas violência dentro das próprias classes,
pobres ou ricas, a qual acabou criando uma arquitetura de muros,
guardas, portões e cães ferozes, que, por sua vez, formou uma cidade e
colonizou as mentes dos seus cidadãos.
A São Paulo dos Racionais é uma cidade-bunker, cidade-praça-de-guerra, separada por guaritas, cercas elétricas, gritantes abismos sociais e por muita, muita violência.
A
cultura hip hop foi um dos caminhos que os jovens das periferias de
grandes cidades como São Paulo encontraram para, de alguma forma,
enfrentar essa situação monstro. Ela é a fórmula utilizada pelos jovens
pobres e negros dessas metrópoles para registrar a opressão, a
violência, o preconceito e a miséria em que se vive.
Como todo
movimento contrário ao status quo, o hip hop já foi clandestino e
marginal. Atualmente, no Brasil, ele é um movimento totalmente inserido
na indústria de entretenimento, apesar de algumas bandas como os
Racionais MCs permanecerem próximas às suas primeiras idéias. Hoje, o
hip hop engloba música (o rap — Rythm and Poetry — e a discotecagem), dança (break e street dance) e artes plásticas (o grafite).
Rap
O
rap nasceu da música funk dos EUA, que, por sua vez, é fruto da música
soul, a qual surgiu de uma união do rhythm and blues, uma música
profana, com o gospel, uma música protestante negra. Nos anos 70, nos
EUA, o funk havia passado por um intenso processo de comercialização, o
qual desembocou na febre das discotecas e dos grandes bailes, de onde
surgiu o rap.
Este estilo musical nasceu mais especificamente no
bairro nova-iorquino do Bronx, em 1971, quando a jovem Cindy Campbell,
que precisava de dinheiro para voltar a estudar, pediu ao seu irmão
Clive que organizasse uma festa.
Quando morava em sua terra
natal, Kingston, na Jamaica, Clive costumava freqüentar os bailes
locais. Ele ficava encantado com os enormes equipamentos de som dos
DJs, e como eles ´conversavam´ ritmicamente, numa batida repetitiva, no
início de cada música.
A festa dos irmãos Campbell foi um
sucesso: a entrada custava 25 centavos de dólar para as moças e 50 para
os rapazes. O baile só parou às 4 da madrugada. Clive então passou a
organizar outras festas e, em 1973, ele deu uma grande festa nas ruas
do Bronx. Desde então, Clive passou a ser conhecido como Kool Herc,
apelido que usava para pichar os trens do metrô.
Nessa
época, Clive tinha 18 anos e era o primeiro DJ que falava num ritmo
entrecortado. Com dois toca-discos funcionando ao mesmo tempo e duas
cópias de cada disco, podia tocar o mesmo trecho sem parar. Ele tinha
dançarinos que executavam seu número ao som do break, e daí surgiu o
nome ´breakdancers´ ou, como Kool Herc os chamava, b-boys.
Porém,
foi o jovem Joseph Saddler quem realmente criou o rap que existe hoje.
Para Sandler, a maioria das canções tinha apenas dez segundos que
valiam a pena, e, se esses trechos fossem agrupados e repetidos se
poderia estendê-los para criar noites inteiras de baile. Metido em seu
quarto no Bronx, ele criou uma forma de ouvir um toca-discos com fones
de ouvido, enquanto o outro aparelho animava a festa. Com esse macete,
um DJ poderia tocar ininterruptamente os mesmos dois discos, porém
fazendo com que os trechos se misturassem, criando assim novas
combinações.
Foi assim que Sandler se tornou o DJ Grandmaster
Flash, que passou a tocar e comandar grandes bailes. Foi ele quem
inventou o scratch — técnica que produz sons ao girar manualmente e em
sentido contrário um LP sob a agulha de um aparelho de som. Também foi
ele quem criou o back spin, uma técnica que permite ao DJ extrair do
disco uma frase rítmica, um groove (parte da música que se repete e
determina o ritmo da canção), para repeti-lo várias vezes, modificando
assim o andamento normal da música utilizada (essa repetição do groove
é conhecida como looping e ocorre ao longo de toda música). O back spin
é, portanto, uma espécie de bricolagem sonora que possibilita ao DJ a
criação de músicas apenas com os pedaços de outras músicas.
Estas
técnicas somadas ao advento do sampler — aparelho que copia sons pelo
computador (os grooves que o DJ usa na música) — e do mixer — aparelho
que o DJ usa para ´colar´ uma música na outra — possibilitaram fazer
com que o DJ fosse capaz de criar infinitas músicas compostas por meio
de colagens de trechos de diferentes canções (normalmente consagradas).
Quando esta técnica começou a ganhar espaço, surgiu então a figura dos MCs — abreviatura de ´master of ceremony´ (mestre-de-cerimônia), que cantavam e animavam os bailes ao som das músicas criadas pelos DJs.
Foram os MCs que inventaram o rap — abreviatura de ´rhythm and poetry´
(ritmo e poesia). Este tipo de música, em seu início, era basicamente
feito com um rapper que se apresentava cantando sobre uma base
instrumental criada pelo DJ. As letras das músicas dos rappers são
sempre faladas ou declamadas.
Com o passar do tempo e com a
disseminação do rap entre os guetos norte-americanos, surgiu então a
cultura do hip hop, que engloba música, arte e dança.
Hip Hop
Numa tradução literal hip hop significa movimentar os quadris (to hip, em inglês) e saltar (to hop).
Atualmente, ele é um movimento cultural, social e político que reúne,
basicamente, três elementos: a música rap, artes plásticas (grafite) e
dança (break e street dance).
No Brasil, esta cena
não ficou apenas no protesto contra as condições de vida na periferia.
Grande parte das bandas também trabalha para melhorar a vida em suas
comunidades, porém, nem todo grupo de rap é do movimento hip hop. A
inclusão depende justamente do viés social do grupo.
Existe até
um conceito para essa participação na sociedade: posse, que designa a
associação de bandas de rap e outras pessoas ligadas ao movimento. As
posses foram criadas nos Estados Unidos para que os rappers, breakers e
grafiteiros trocassem informações.
Os integrantes das posses
muita vez atuam em ONGs. Nesse sentido, o rap conseguiu fazer com que
jovens da periferia ganhassem poder político.
Como disse o poeta
alemão Rainer Maria Rilke: ´uma obra de arte é boa quando surge da
necessidade´. O rap é música da necessidade, que atrai jovens pobres da
periferia em busca de identidade. O estado de ser invisível é uma
metáfora constante da condição do jovem negro da periferia na sociedade
brasileira. A cultura hip-hop, no Brasil, deu voz à invisibilidade.
Foi
com ela que jovens como os rappers do Racionais MCs passaram de
consumidores de uma música pop norte-americana para produtores de uma
música pop brasileira, que, apesar de estar dentro do mercado
fonográfico do país, funciona como estorvo, um espinho, um incômodo.
O
rap é um exemplo do impacto do capitalismo tardio multinacional na
cultura brasileira. Foi este sistema que trouxe o rap norte-americano
para o Brasil, porém, paradoxalmente, é contra este sistema que muitas
posses ligadas ao rap nacional lutam. Talvez daí surja o paradoxal
discurso dos Racionais, que ao mesmo tempo quer participar da sociedade
de consumo e do capitalismo tardio, os quais esse mesmo discurso muita
vez reconhece como forças repressoras e injustas.
O rap dos
Racionais demonstra, por sua vez, que a homogeneização da cultura dita
´jovem´ é impossível porque as apropriações que são feitas dessa
cultura nem sempre caminham junto com aquilo que o modelo do
capitalismo tardio prega. O rap dos Racionais ocorre temporalmente
junto e espacialmente dentro de uma inquestionável globalização do
universo cultural da população mais jovem das periferias, porém, esta
globalizacão não está isenta de aspectos locais, os quais fazem, muita
vez, que o ´local´ predomine sobre o ´global´.
A cultura do hip
hop é, portanto, uma forma de representação dessa realidade fraturada,
uma maneira de compreender essa separação e representá-la através de um
discurso muita vez tão agressivo quanto a própria separação.
Os
discursos dos rappers e do hip hop mostram uma cidade recheada por
construções que separam os diferentes, que ´destroem´ o espaço público
e aumentam ainda mais essas diferenças, pois o mesmo muro que protege o
rico é também a barreira que ressalta a separação e acirra os
conflitos. A São Paulo dos rappers é uma cidade onde a segregação
social aparece cristalizada na figura dos condomínios fechados,
shopping centers, casas que são enclaves fortificados, centros de
´clausura´ que relegaram ao segundo plano o espaço público.
Um
exemplo desse discurso, muita vez regressivo e violento, está, em São
Paulo, na figura dos pichadores. Para estes cidadãos, a pichação é a
forma encontrada para combater uma violência ainda maior: a da
invisibilidade social que os muros e a pobreza inculcam no jovem
superexplorado da periferia. O mesmo ocorre com o discurso agressivo
dos rappers paulistanos. Nesse novo discurso e nessa forma de
comportamento, tudo o que for genuinamente produzido pela periferia vem
carregado de enfrentamento.
Sobreviventes, para estes jovens da
periferia, o enfrentamento é seu único discurso. Eles combatem a cidade
opressiva e murada com uma postura saída deste mesmo ambiente que a
sociedade lhes empurra goela abaixo. São produtores de discursos
gerados num ambiente opressor, mas contrários a ele. Contrários à
fortificação da cidade e às apropriações privadas do espaço público
feita por aqueles que fecham fecham ruas, colocam guaritas na calçada e
impedem uma das principais funções do espaço público moderno: permitir
a liberdade de circulação.
Nesse sentido, sua similaridade com o
futurismo é assustadora. Suas músicas, assim como as obras futuristas,
são mais conhecidas por seu manifesto do que por seu valor artístico.
Da mesma forma que o Manifesto Futurista é um elogio à máquina
e uma demonstração de ódio ao passado e amor ao mundo moderno, as
letras das músicas dos rappers também são uma busca de conciliação
desesperada com a modernidade, com a sociedade de consumo e com todas
as máquinas que ela pode oferecer.
Da mesma forma que o
futurista queria produzir no observador a vertigem, o discurso dos
rappers, recheado da narração de experiências, individuais ou
coletivas, onde a violência é generalizada, também procura a vertigem
daquele que o ouve, mas a vertigem pelo vigoroso e hostil anúncio
ultra-realista da violência.
Fontes:
Folha de S. Paulo
Dayrell, Juarez; A Música Entra em Cena – O rap e o funk na socialização da juventude; Editora UFMG; 2005
Por Renato Roschel (www.speculum.com.br)

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