Funk carioca: um bem cultural?

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O assunto foi destaque até mesmo no jornal britânico The Guardian e na New Musical Express, uma das mais famosas publicações musicais do Reino Unido, mas ficou meio de lado na nossa imprensa musical. Somente depois da repercussão internacional, é que nossa mídia resolveu falar sobre o assunto e correu atrás de mais informações.

Para o deputado, "o debate sobre o funk não é um debate fácil de ser feito". Realmente não é. Assim como o rap norte-americano, boa parte de suas letras elegem a criminalidade, o consumo de drogas e a submissão da mulher como temas preferidos, claro que não podemos generalizar, não é porque as letras podem ser qualificadas como subversivas que seus autores e, principalmente, os fãs do estilo também o são, então é realmente complicado defender algo que, teoricamente, prega que não sigamos nossas próprias leis.

Freixo também alega que o movimento é forma de expressão para diversas comunidades carentes e que reune mais de um milhão de jovens a cada final de semana nos bailes pelos subúrbios. E ninguém pode dizer o contrário, da mesma forma que o punk é uma forma de expressão de um certo grupo de jovens, o forró é de outro e a música eletrônica, entre todos os demais estilos, também o é. A diferença é que nenhum político "abraçou" estes movimentos e pensa em transformá-los em um bem cultural que deve ser protegido.

Sua proposta afirma que "compete ao poder público assegurar ao movimento a realização de suas manifestações próprias, como festas, bailes..." e proíbe "discriminação ou preconceito, seja de natureza social, racial, cultural ou administrativa" contra o movimento funk, criticando a polícia e a Secretária de Segurança por pensarem em proibir os bailes funk que acontecem por todo o Rio de Janeiro. Discriminação e preconceito não devem ser tolerados em nenhuma circunstância e nossa constituição já prega isso, não sendo necessária a criação de mais uma lei para reafirmar algo que já é direito do cidadão, independentemente do tipo de música que queira ouvir.

Também cabe ao poder público proteger as pessoas que vão aos bailes para se divertir, jamais assegurar que o baile deva acontecer, isso cabe apenas aos produtores, que devem contratar seguranças e solicitar ajuda da polícia quando necessário. Imaginem a situação, baile funk não é mais moda, não dá mais lucro para seus produtores, caberia ao governo assegurar sua realização? Sei que é um exagero da minha parte, mas alguém pode interpretar dessa forma e processar o estado por não seguir com o que manda a lei. Parece que o nobre deputado está invertendo a ordem das coisas.

E não é somente o deputado estadual que tenta proteger o funk. Outro deputado, este federal, enviou à Câmara dos Deputados, em Brasília, projeto que faz com que o funk carioca seja considerado manifestação cultural popular. O deputado Chico Alencar, também do PSOL, é o responsável pela defesa do movimento e quer que o poder público garanta a proteção e a livre realização das festas e bailes.

Teoricamente, se o funk carioca fosse elevado a movimento cultural, todos os demais estilos musicais brasileiros também teriam direito. Alguns mais que o próprio funk, principalmente por sua história e pelo seu significado para a comunidade envolvida. Dessa forma até mesmo o punk rock, movimento perseguido pela polícia durante boa parte dos anos 1980, de uma forma muito parecida com o funk, merece proteção. E por que não fazer do pagode, que também leva milhares de pessoas aos bailes em São Paulo, um movimento cultural que precisa ser defendido do preconceito e afins?

Não concordo com que o "movimento funk" seja considerado um bem cultural brasileiro. Se suas letras refletem o cotidiano de suas comunidades, como sua falta de segurança, falta de confiança na polícia, o tráfico tomando conta das ruas, etc., o movimento emo também reflete o cotidiano de milhares de meninos e meninas que gostam de se pintar e usar preto e são perseguidos pelas ruas de São Paulo apenas por se portarem de forma diferente. Ser marginalizado e estigmatizado não é motivo para que políticos tenham que defende-los por intermédio de uma lei. Já temos leis que, se fossem claramente seguidas, fariam esse trabalho.

Qual a verdade por trás, então, do tal projeto? Simples, é totalmente eleitoral. O funk carioca, como bem lembrou o deputado Marcelo Freixo, arrebata mais de um milhão de pessoas por final de semana. Um milhão de possíveis eleitores, o que para um partido nanico como o PSOL pode soar como uma benção. Ninguém defenderia o movimento punk, porque dificilmente um baile punk levaria mais que algumas centenas de pessoas para a balada. Será que é uma utopia muito grande querer que nossos políticos usem seu tempo para assuntos que realmente merecem mais atenção, como buscar soluções para diminuir a violência em nossas grandes cidades ou melhorar a educação nesse país?

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