Lulu Santos
Written by Administrator Monday, 17 January 2005 21:00
Na escola, porém, Lulu demonstra outra inclinação, a pintura. Com 12 anos, dedica-se à reprodução à guache de obras dos grandes pintores. Ao mesmo tempo, sente um interesse cada vez maior por aquele som que conhecera nos Estados Unidos, o blues e o rhythm´n´blues. Amo o blues desde moleque. Aos 10, 11 anos, eu cantava Wilson Pickett, Otis Redding, Arthur Conway...´Entre 12 e 13 anos, Lulu troca os pincéis pela guitarra e forma seu primeiro conjunto, que passa a animar as domingueiras dos clubes cariocas. O repertório, invariavelmente, inclui canções dos maiores ídolos do adolescente Lulu - os Beatles. Os Beatles eram meu país, minha religião, minha família.
Final da década de 60, época do flower power, da liberdade sexual, da contra-cultura e dos hippies. Lulu Santos não deixa por menos, aos 17 anos abandona o último ano do colegial, sai de casa com uma mochila nas costas e cai na estrada - dando fim aos planos do pai, que queria Lulu na carreira militar. É um período conturbado, frustrado, Lulu desiste de ser hippie e decide perseguir sua verdadeira vocação, a música. Aos 19 anos, forma seu primeiro grupo sério, o Veludo Elétrico. Em menos de um ano, Lulu deixaria o grupo para fundar, ao lado do baixista Fernando Gama, o Vímana. A estréia da nova banda, que tem ainda Candinho na bateria e Luiz Paulo nos teclados, acontece em 74, abrindo para os Mutantes e O Terço.
Alguns meses depois, o grupo ganha dois novos integrantes - Candinho é substituído por Lobão, e Fernando Gama deixa a vaga aberta para a entrada do flautista e cantor Ritchie. No então sombrio panorama do rock nacional, confinado ao circuito underground e ignorado pelo grande público, o Vímana é um dos destaques, com seu rock progressivo inspirado no conjunto Yes e suas letras em inglês. Chegam a gravar um LP independente, que não foi lançado. Ao invés disso, sai um compacto, Zebra, pelo selo Sigla, pertencente à Som Livre (GLOBO), em 76. Após o lançamento, o grupo se dissolve. Lobão vai para a Blitz, Ritchie ensaia sua carreira solo e Lulu decide começar tudo da estaca zero, convencido de que ainda não encontrou o seu som. ´O Vímana era um híbrido de nada com coisa nenhuma. A essência do rock é tribal, física, não tem nada de cerebral.
Nessa fase conta com a ajuda valiosa da jornalista Scarlet Moon, que conheceu numa festa na casa de Caetano Veloso e com quem se casou pouco tempo depois. Decidido a retomar com força total a carreira, Lulu ataca em todas as frentes. Compõe, junto com a A Cor do Som, a trilha sonora do filme Os Sete Gatinhos, de Neville Almeida. Forma uma nova banda, Uns e Outros, com Arnaldo Baptista (ex-Mutantes) e Pedro Fortuna (futuro baixista da Blitz) e lança um compacto pela Polygram, com seu nome real, Luiz Maurício, A gravadora achava que Lulu não era nome de cantor diz. A banda não dura mais de seis meses, o compacto com a música Gosto de Batom (de Pedro Fortuna e Bernardo Vilhena) não chega a emplacar. Sem grupo, sem gravadora, Lulu acaba aceitando a oferta da Som Livre e vai trabalhar como produtor, ou como diria mais tarde, selecionador de trilha de novela. Arrisca ainda alguns textos para a revista Somtrês, como crítico de música.
Em 81, surge a primeira grande oportunidade, através de um convite do amigo Nelson Motta para compor a música de abertura do programa Mocidade Independente, na TV Bandeirantes. Tesouros da Juventude é uma das primeiras composições de Lulu e Nelson, que se tornaria um de seus parceiros mais constantes. O programa é tirado do ar, mas a música acaba fazendo sucesso nas rádios. O compacto sai pela WEA. Também está presente um ska chamado Fricção Científica. Ainda nesse ano, a dupla classifica-se no MPB 81, o festival da Globo. Areias Escaldantes não passa das eliminatórias, o que não impede que seja lançada em compacto e bem executada nas FMs. (Mais tarde, em 85, o diretor Francisco de Paula pediria a música emprestada para o filme homônimo). Um terceiro compacto, dessa vez duplo, é lançado em 81. Além das três faixas anteriores (Tesouros da Juventude, Fricção Científica e Areias Escaldantes), a gravação ainda inclui De Leve, uma versão de Rita Lee e Gilberto Gil para Get Back, dos Beatles.
O primeiro LP, Tempos Modernos, sai finalmente em 82. De Repente Califórnia, que já ficara popular na voz de Ricardo Graça Mello - ator principal do filme Menino do Rio, de Antônio Calmon, do qual a canção é tema, ganha as rádios na voz de Lulu. Tempos Modernos e Tudo Com Você seguem o mesmo caminho. As baladas pop, aliadas à letras românticas de Nelson Motta, Antonio Cícero e Fausto Nilo, entre outros parceiros, têm aceitação imediata por parte do público. Mas as 50 mil cópias de Tempos Modernos são apenas um prenúncio do que viria a seguir.
Com a balada Como Uma Onda, faixa de seu segundo LP, O Ritmo do Momento, Lulu dá um passo decisivo em direção ao estrelato, conquistando o Brasil. No lançamento desse LP, ele lota o Maracanazinho, no Rio - um salto e tanto para quem, há menos de um ano, fazia shows com playback na periferia da cidade. A imprensa, porém, não poupa fisgadas ao novo ídolo. New wave, zen-surfismo e cantor de boleros são apenas alguns dos termos usados pela crítica para classificar o seu trabalho.
Em abril de 84, Lulu chega aos estúdios Eletric Lady, em Nova York, mixando o seu novo LP, Tudo Azul. Gravado em apenas 20 dias, o disco traz algumas surpresas, como a regravação de O Calhambeque, e a participação de Erasmo Carlos e Rita Lee na faixa Ronca Ronca, uma homenagem aos roqueiros com mais de 30 anos.
No auge da popularidade, com quatro hits estourados nas rádios, Lulu é convidado a participar do Rock in Rio. O desafio é duplo: conseguir marcar presença tocando ao lado de astros como Nina Hagen e Rod Stewart, e, ao mesmo tempo, superar os problemas de uma organização voltada exclusivamente para os músicos estrangeiros. Foi a pior experiência da minha vida, uma das coisas mais opressivas por que passei, diria Lulu, após ser forçado a deixar o palco móvel da cidade do rock - colocado em movimento quando ele se preparava para mais um bis. O saldo, porém, é positivo: a fita da Globo, apresentada dias depois, registra a verdadeira dimensão do sucesso de Lulu, com milhares de pessoas entoando o quase hino Tempos Modernos. Um outro momento desse festival foi quando Lulu cantou e gesticulou: Você pensa que Menudo é macho? Menudo não é macho não, Menudo faz assim com o braço, depois faz assim com a mão.
O ano de 85 é também o de Normal, o mais elogiado LP do cantor. Dessa vez, ele faz tudo praticamente sozinho. Além de cantar e tocar guitarra, encarrega-se do baixo, dos teclados e dos efeitos eletrônicos, assumindo ainda a produção, antes a cargo de Liminha - Lulu já produzira, anteriormente, os LPs Televisão, dos Titãs, e O Melhor dos Iguais, do grupo paulista Premeditando o Breque. O pop radiofônico que predominava nos trabalhos anteriores dá lugar a um som mais pesado e básico. É a face roqueira de Lulu, calcada nos anos 60, as referências vão dos sons orientais de Atualmente à capa de inspiração psicodélica. Normal é ainda o último disco de estúdio do cantor pela WEA, que lançaria uma coletânea de hits em 87, chamada O Último Romântico.
Em 86, Lulu (também conhecido como Casa), faz o primeiro lançamento pela RCA, retoma a linha anterior a Normal, abrindo espaço, porém, para a inclusão de outros gêneros, como o reggae Demon, composição do Lulu em inglês, e o rock básico de Ro-que-se-da-ne, vetada pela censura. Músicas como Minha Vida, Condição e principalmente Casa colocam Lulu de volta às paradas. O sucesso é tanto que a gravadora anuncia no início de 87 a conquista do disco de platina (marca de 250 mil cópias vendidas). Mas, para espanto geral, Lulu recusa a premiação, em pleno Maracanazinho (RJ). Segundo ele, o disco de platina era uma farsa, já que, até aquela data, o LP havia vendido pouco mais de 170 mil cópias.
Três anos depois, em 88, Lulu tem a chance de se recuperar do trauma do Rock in Rio. Superando as expectativas, ele acaba sendo responsável pelos shows mais quentes do festival Hollywood Rock. Tanto no Rio quanto em São Paulo, o cantor limita-se a empunhar sua guitarra e correr pelo palco, e o público canta de ponta a ponta todas as músicas.
Blues, bossa nova, funk, afoxé, em seu sexto LP, Lulu vai fundo na mistura de ritmos, já esboçada nos trabalhos anteriores. Toda Forma de Amor marca também o fim das parcerias. As letras são todas de Lulu, com exceção de Ton Ton, uma canção angolana recolhida por Arthur Maia (baixista da banda). Um mês após o lançamento, com duas faixas tocando sem parar nas rádios (Toda Forma de Amor e A Cura), Lulu tem, pela primeira vez, a oportunidade de se lançar no mercado internacional, a partir de uma noite brasileira do Festival de Montreux, em junho de 88. Na volta, Lulu inicia uma gigantesca turnê pelo Brasil, incluindo várias capitais do Nordeste, Norte e Sul, fechando com uma série de shows no interior de São Paulo, e durante a qual é gravado o álbum Amor à Arte (ao vivo).
Em 89, é a vez de Popsambalanço e Outras Levadas, que resgata a figura de Jorge Ben Jor através de sua mistura de ritmos e das influências do ´sambalanço´. O álbum não foi bem recebido pela crítica, e vendeu 70 mil cópias. O próprio Lulu admitiu mais tarde que o álbum poderia ter sido muito melhor.
Honolulu, lançado durante o show de abertura que Lulu fez para Eric Clapton na Apoteose (RJ), em 1990, foi o retorno aos hits, ditos pela crítica ´característicos do Lulu´. Papo Cabeça tocou bastante nas rádios do país. Mas o sucesso alcançado não durou muito. Lulu trocou de gravadora, indo para a Polygram, e em 92 lançou Mondo Cane, tido como o maior fracasso em sua carreira. O álbum, que tinha tendências do estilo grunge (que na época ditava as regras do pop-rock mundial), vendeu pouco e foi muito criticado. Os destaques do álbum são Apenas Mais Uma de Amor (que tornou-se uma das músicas mais pedidas pelo público, até hoje) e Cicatriz, que também teve boa execução nas rádios. Em 93, Lulu lançou um single, Auto Estima, que trazia, além da faixa-título, três músicas lançadas no álbum anterior.
Lulu retornou à BMG em 1994, quando o sucesso retornou à sua carreira. Neste ano, foi lançado Assim Caminha a Humanidade, primeiro álbum da trilogia com o DJ Marcelo ´Memê´ Mansur. A música-título, tema de abertura da novelinha global Malhação, junto com Tudo Igual e as outras faixas deste álbum levaram Lulu, e sua fase dance, ao topo das paradas. Mas o auge ainda estava por vir. No ano seguinte, foi lançado o segundo álbum da trilogia, Eu e Memê, Memê e Eu. As versões remixadas de grandes sucessos, como Casa e Tudo Bem transformaram Lulu em ídolo da geração dance e renderam uma vendagem superior a 1 milhão de cópias.
Em 96, foi lançado o álbum que encerra a parceria com Memê. Anticiclone Tropical traz uma versão para Dancin´ Days, das Frenéticas, e Assaltaram a Gramática, poema de Waly Salomão musicado por Lulu, originalmente gravado pelos Paralamas do Sucesso em 1984, com um rap composto e cantado por Gabriel o Pensador. A proposta dance, traduzida em seus dois álbuns anteriores, começa a ser remodelada com a releitura do soul no Brasil, o que faz desse álbum uma volta ao ritmo dos anos 70, foi considerado apenas regular pela crítica.
Nesta mesma época, Lulu iniciou seu contato com a tecnologia e a Internet. Foi quando seu site oficial entrou no ar. Para o clipe de Aviso aos Navegantes, Lulu pediu aos internautas que enviassem figuras para uma colagem. Durante o lançamento deste álbum, Lulu afirmou que estava encerrando sua carreira fonográfica. Mas não foi o que aconteceu. Em 97, ele lança Liga Lá, um flerte com a música eletrônica. O destaque foi a regravação de Ando Meio Desligado, sucesso dos Mutantes. Produzido por Marcelo Sussekind, o álbum trouxe uma parceria com Rogério Duprat, maestro da Tropicália, que fez um arranjo de cordas para TempoEspaço. Composto basicamente de regravações, o álbum não obteve tanto sucesso quanto os anteriores – vendeu 160 mil cópias. Ainda em 97, Lulu estréia no cinema. Ele fez uma pequena participação no filme O que é isso, Companheiro?, interpretando o Sargento Eiras. Lulu declarou que gostaria de atuar com mais freqüência.
Com a chegada da música eletrônica, a guitarra tinha seus dias contados. Lulu percebeu isso quando avaliava a gravação de um show de sua turnê para lançamento. Foi então que surgiu o Jakaré Power Trio. Lulu rompeu com o que vinha fazendo anteriormente e apresentou, em curta temporada no Rio de Janeiro, um show que privilegiava a guitarra (além dela, só baixo e bateria), resgatando o lado B de sua carreira. Embora haja registro dessas apresentações, nada chegou a ser lançado devido a uma estratégia de marketing da gravadora.
Calendário (99) marca o reencontro com Liminha, produtor de seus primeiros discos. Lulu afirma que solo de guitarra está em desuso, e que precisou passar pela experiência do Jakaré para descobrir isso. O álbum traz canções inéditas, com exceção de Eu Não (gravada por Lulu no Popsambalanço e Outras Levadas, de 89) e Sábado à Noite, composição do Lulu gravada pelo Cidade Negra no ano anterior.
Em 2000, Lulu revisita sua carreira com o Acústico, que traz de volta o sucesso e atrai uma legião de novos fãs. O álbum, duplo, vendeu quase 1 milhão de cópias. O show teve como único convidado Gabriel o Pensador. O disco mesclava seus grandes sucessos com músicas não tão conhecidas do grande público. A estratégia da gravadora em lançar o CD como álbum duplo e também como dois simples é a grande responsável pela excelente vendagem do Acústico.
Já em 2002, Lulu lança o álbum Programa, que faz uma espécie de retrospectiva dos anos 90, segundo o próprio Lulu. Para a crítica, seria a comemoração dos 20 anos de carreira completados neste ano, revisando-a desde o lançamento, em 82, de Tempos Modernos. Os grandes destaques do CD são Todo Universo, primeira canção de trabalho largamente executada nas rádios de todo o país, e uma parceria com Ed Motta e Marcos Valle.
Agora em 2003, Lulu Santos retorna com a parceria feita com o produtor e DJ Meme e lança o disco Bugalu que esta gerando críticas das mais diversas, desde aquelas que colocam o disco como um dos melhores lançamentos do ano até as que classificam como uma das piores coisas que o cantor fez na carreira. Mas quem decide se um disco é bom ou não são os fãs, e estes parecem satisfeitos com o novo disco.
Em 2004, novamente a MTV aposta no cantor e é lançado o MTV Ao Vivo, com os maiores sucessos de Lulu Santos.
Fonte: Site LuluSantos.com, com revisão e atualização de Valdir Antonelli




