Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que a atual crise sanitária tornou necessários o isolamento social e a paralisação de inúmeras atividades para diminuir as perdas de vidas humanas, vimos uma aceleração no desenvolvimento de respostas para novos e velhos problemas.

Visando a redução dos impactos econômicos das necessárias medidas de segurança sanitária, variados agentes econômicos foram levados pela necessidade e urgência, à adoção de novas ferramentas tecnológicas para adaptação e inovação de produtos e processos.

As ferramentas de videoconferência e plataformas de streaming foram os recursos que ganharam maior visibilidade na pandemia por resolverem problemas causados pela limitação de mobilidade e necessidade de distanciamento social. No segmento de TI empresas como a californiana Zoom Video Communications Inc se tornaram modelos. De janeiro a maio deste ano a Zoom viu suas ações valorizarem 150% com sua ação valendo US﹩ 172 e o valor de mercado da empresa atingindo US﹩ 48 bilhões.

E foi num desses encontros realizados por meio de videoconferência que no último dia 24, representantes de entidades e executivos de um setor produtivo, no caso o de rochas ornamentais, compartilharam experiências, novas práticas e projeção de cenários para o futuro próximo.

No Brasil, os principais estados que concentram as atividades do setor são Espírito Santo, Minas Gerais e Ceará. O estado do Espírito Santo, que é o maior produtor e exportador de rochas do país, responde por cerca de 130 mil empregos e reúne 3.500 empresas. Em 2019 as exportações capixabas de rochas ornamentais contabilizaram US﹩ 828 milhões.

A primeira edição do Stone Summit teve o título "O impacto da Covid-19 no mercado de rochas ornamentais - lições da crise e as perspectivas pós pandemia para o setor de rochas" e contou com mais de 400 participantes on-line além de seus organizadores e expositores.

Logo na abertura do evento, o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Léo de Castro, manifestou preocupação com o resultado de uma pesquisa que constatou que 60% dos empresários ouvidos cancelou ou postergou para 2021 seus projetos de investimentos. Em seguida, o presidente do Sindirochas Tales Machado, expôs que a queda em valor de exportações nos últimos meses foi de 16% e em toneladas 7%, demonstrando o melhor desempenho em vendas de materiais básicos e maior retração dos exóticos. Machado destacou os esforços do setor no canal de vendas pela web que, em função da pandemia, precisou substituir as visitas presenciais.

Gustavo Probst, da empresa Decolores, observou que o material básico é mais fácil de ser vendido por foto, sinalizando a importância do investimento em qualidade das ferramentas digitais de apresentação de produtos. Adriano Alves, do Vitoria Stone Group, avaliou que o tempo compreendido pela pandemia ainda é curto para que se tenha tido condições de concepção, implementação e avaliação de estratégias. Fez também uma boa ponderação sobre o peso de variáveis políticas internacionais como a sucessão presidencial nos Estados Unidos em novembro próximo, cujos impactos transcendem o mercado norte-americano dado ao peso econômico daquele país.

Gonsalo Machado, da Magban, expôs que importadores e clientes diretos tem buscado maior segurança em suas transações, privilegiando fornecedores e produtos tradicionais. Salientou também a importância de contar com equipe financeira qualificada em negócios internacionais capaz de analisar aspectos particulares de cada país com o qual se faz negócio, condição para o estabelecimento de relacionamentos comerciais duradouros.

John Thomazini, CEO da Gramazini, observou que as ações do governo chinês subsidiando importações de matérias primas estimulou a venda de blocos para aquele mercado.

Sobre a Itália, que é um hub de distribuição de placas para toda a Europa, Thomazini avaliou que, embora a crise tenha provocado a queda das exportações de blocos para o país europeu, abriu oportunidades para países como o Brasil tentar exportar placas (produto de maior valor agregado) aos mercados não atendidos pela Itália.

Frederico Robison, do Centrorochas, avaliou a importância do desenvolvimento desse networking do setor de rochas ornamentais, por fortalecer toda a cadeia e contribuir para a projeção de uma imagem madura e profissional do setor e do país.

O que diferentes analistas têm apontado é que um importante balizador da qualidade das empresas no pós-pandemia será a efetiva adoção de medidas orientadas porprincípios de responsabilidade social e sustentabilidade em seus pilares econômico, ambiental e social.

Assim como a atual crise desafiou gestores a comandar sob pressão e encontrar novas respostas para problemas, as demandas por transparência e honestidade na comunicação com colaboradores, fornecedores e clientes e a capacidade de mobilizar pessoas em projetos com propósitos que transcendam a mera dimensão econômica financeira das operações, demarcarão o espaço de inserção de cada empresa.

O que a pandemia também evidenciou é a grave crise de liderança que o mundo vive, quer seja no âmbito da política ou do ambiente corporativo. Como bem avaliou, recentemente, o economista norte-americano William Boulding: na pandemia a crise de liderança se desdobrou em crise de gestão.

O primeiro passo para o enfrentamento de qualquer problema é seu reconhecimento. Uma liderança qualificada, bem informada, bem assessorada e com legítimos propósitos produz confiança. E confiança se afirmará como o principal valor num tempo de tantas incertezas.

Arnaldo Francisco Cardoso é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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