Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 35% da população brasileira têm algum tipo de deficiência. Um número expressivo, mas ainda pouco considerado quando olhamos para o universo digital e a inserção desse público em projetos desenvolvidos com esse viés. Com tanta demanda e potencial de crescimento no mercado, a pergunta que fica é: seu projeto digital inclui recursos de acessibilidade?

Em 2015, o Governo Federal tornou obrigatória a acessibilidade digital para as páginas web das organizações públicas para ficarem disponíveis facilmente para qualquer pessoa. No entanto, pouco se caminhou de lá para cá. A realidade é bem diferente da apresentada no papel, e um longo caminho deve ser percorrido até colocarmos as ideias em prática.

O cenário atual é tímido, mas promissor. O impasse é a falta de visibilidade do mercado, que comete um grande equívoco ao não aderir os projetos, uma vez que investir em acessibilidade promove ganhos tanto para as pessoas com necessidades especiais quanto para as empresas. Estruturar uma iniciativa que inclui apoio para os diferentes tipos de deficiências é, de fato, participar da transformação digital e se assumir protagonista de uma mudança que não é apenas tecnológica, mas também cultural.

Quando falamos sobre projetos digitais para pessoas com necessidades especiais, um dos principais erros cometidos é oferecer a acessibilidade como future e não sendo parte integral do plano. Para mudar o cenário, é indispensável que o front-end conheça as diretrizes de acessibilidade e as tags que podem ser usadas. Além disso, os desenvolvedores devem identificar e dominar as funcionalidades que tornam um projeto acessível. Já o responsável por testar a solução precisa ter empatia com pessoas que possuem algum tipo de deficiência. Ter ainda uma equipe preparada para entregar um site, aplicativo, portal ou qualquer outro produto acessível que reduz o custo do trabalho.

Para sentir na pele as dificuldades que 35% da população brasileira enfrenta diariamente, antes de iniciar um projeto digital é interessante que o desenvolvedor utilize ferramentas de tecnologia assistiva, como leitores de tela (NVDA, JAWS, VoiceOver e outras). Outra opção é utilizar recursos que dificultem seu acesso ao mundo tecnológico, como venda nos olhos efones de ouvido, por exemplo. Quanto mais próximo estivermos da dificuldade vivenciada por uma pessoa, melhor estruturado e eficiente será o resultado. Além disso, há casos em que o próprio desenvolvedor tem algum tipo de deficiência. Dessa forma, o projeto digital se torna ainda mais assertivo para quem utilizará.

Encontramos boas ideias no movimento "web para todos", uma iniciativa para transformar a mobilização, educação e a sociedade em relação à acessibilidade na web. O projeto conta com uma comunidade multidisciplinar, que inclui designers, desenvolvedores, produtores de conteúdo, administradores, engenheiros e empreendedores. Essa é uma das ações para revolucionar a forma como o mercado tem se posicionado sobre o assunto. A equipe fornece relatórios técnicos sobre acessibilidade na web para disseminar dados qualitativos à sociedade e engajar cada vez mais as empresas e o poder público. Discutir e criar parâmetros comparativos é essencial para o acompanhamento da transformação digital e o cumprimento legal do que já foi conquistado e o que ainda será.

Deixar a acessibilidade de lado é o mesmo que nadar contra a evolução digital e, consequentemente, cultural. O que se espera do futuro é a inclusão de todos em tudo. É a inclusão nas sociedades, nas atividades do dia a dia e, acima de tudo, na era digital. O ponto não é apenas sair à frente no mercado, mas oferecer para todas as pessoas a dignidade e a facilidade em utilizar um projeto digital e se sentir parte daquilo.

Wagner Aquino é Senior UX Designer da Resource

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