“Isso é coisa da sua cabeça! ” “Deixe de mimimi e vai trabalhar que não está fácil para ninguém e se você não quiser, tem uma fila inteira que quer! ”
É dessa maneira que muitos lidam com o colega de trabalho, que de fato precisa de uma atenção especial. É dessa maneira que muitas vezes o grau de depressão poder ir do leve ao grave, gerando consequências ainda maiores, sem que se tome medidas apropriadas para evitar isso.

A depressão não é algo optativo e além de tudo, é democrática: pode atingir ateus e gente de fé inabalável, pessoas que antes eram estruturadas emocionalmente e que agora não sabem como reagir. Adoece homens e mulheres, independentemente de suas idades. Num ambiente corporativo, pode atingir do líder ao liderado, do estagiário ao presidente da empresa.

A falta de entendimento sobre o assunto, impede um diagnóstico mais rápido, impossibilitando tratamentos mais adequados e o pior: o pré-conceito tanto de algumas pessoas que acham que depressão é frescura de quem não tem lá muito o que fazer, como das próprias pessoas deprimidas que não aceitam que tenham essa doença que é tão complexa e desafiadora.

Não sou médica, psicóloga ou PhD no assunto, mas assim como muitos, também vivencio isso de bem perto. Conheço pessoas (algumas com o meu DNA) que passaram pelo processo da depressão ou ainda estão nela. Pessoas de fibra e de muita garra que em um momento tem o comando de sua vida e em outro, não conseguem mais lidar com ela. A intenção não é procurar vítimas e culpados, mas sim alertar sobre algo que é real e que está presente no mundo, seja corporativo ou não.

DEPRESSÃO: O MAL DO SÉCULO
O número de pessoas acometidas pela depressão vem crescendo anualmente e conforme o artigo intitulado “ Um Custo Crescente da Modernidade: Depressão”, Daniel Goleman (o mesmo da Inteligência Emocional), há estudos que concluem que a depressão está se mostrando em idades mais precoces e o risco de se apresentar durante a vida está cada vez mais frequente. Se apresentando em indivíduos mais jovens, provavelmente retardará o crescimento profissional, caso os sintomas não sejam tratados rapidamente.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), estima-se que 350 milhões de pessoas no mundo sofram de depressão, na qual 15 % cometem suicídios. Hoje, ela é a segunda causa principal de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. Até 2020 a depressão será uma das maiores causas de afastamentos de trabalho, no mundo.  A OMS avalia que a depressão ocupa o quarto lugar entre as dez principais causas de morte e daqui há 3 anos ocupará o segundo lugar.
O assunto é tão sério que para o Dia Mundial da Saúde de 2017, que acontece em 07 de abril, será iniciada uma campanha sobre esse tema.

AFINAL, O QUE É DEPRESSÃO?
De acordo com psiquiatra Dr. Luiz Gustavo Brasil, a “depressão caracteriza-se como uma doença em que ocorrem desiquilíbrios químicos dos chamados neurotransmissores. Essas substâncias são responsáveis por transportar as informações pela rede de neurônios do cérebro – incluindo a sensação de prazer, serenidade, disposição e bem-estar. A depressão afeta neurotransmissores como serotonina e dopamina, que interferem justamente nesses sentimentos. Esse desiquilíbrio químico pode desencadear uma série de respostas em diversas funções do organismo e as consequências são os sintomas: tristeza, apatia, falta de motivação, dificuldade de concentração, pessimismo, insegurança, entre outros”.

A depressão se manifesta de forma diferente entre as pessoas, mas os sentimentos em comum são o de vazio e tristeza sem uma causa aparente.
Hoje considera-se que a depressão seja uma combinação de diversos fatores: biológicos, psicológicos e ambientais. Passar por um momento delicado na vida, viver em um ambiente desfavorável e não possuir habilidades para lidar com os problemas do cotidiano são causas de depressão tanto quanto fatores bioquímicos.

POSSÍVEIS CAUSAS PARA A DEPRESSÃO NO TRABALHO
Ambiente desfavorável inclui o de trabalho e nesse, as causas da depressão podem aparecer por:

  • Não se reconhecer mais enquanto profissional, sente que deixou de cumprir um papel de si mesmo, deixou de se validar;
  • Sentimento de impotência, receio de não conseguir “dar conta do recado” ou não se sentir apto ao cargo exercido, sem vida social, sempre desmotivado, sem paciência com familiares e amigos, magoando-se ou chorando com facilidade sem um motivo aparente;
  • Discriminação ou assédio (moral e sexual), relacionamento hostil entre pares e entre líderes e liderados;
  • Trabalho com extrema demanda e com muita competividade (chegando a ser irreal);
  • Insegurança no cargo, principalmente com os alertas de crise que estamos vivenciando.

Para Dejours (especialista em Medicina do Trabalho, psiquiatra e psicanalista), o sofrimento é individual, depende da construção social e psíquica de cada um e isso acaba repercutindo no ambiente de trabalho. A grande maioria das pessoas, busca por aprovações e reconhecimento e quando isso não ocorre da maneira esperada, pode trazer incômodos e sofrimentos psicológicos.

Cada pessoa reage de forma diferente às dificuldades encontradas no trabalho, cada um tem uma bagagem de vida diferente com uma história pessoal.

CUIDADO, NÃO CONFUNDA TRISTEZA COM DEPRESSÃO
Ficar triste, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria e não significa que está em depressão. Por mais que gostamos de nosso trabalho e das tarefas que realizamos, não somos lineares em nossos sentimentos humanos e a relação do homem com o trabalho nunca foi fácil: temos vivências de prazer ou de aborrecimentos (sofrimentos), assim como em todos os outros aspectos da vida. Isso faz parte do jogo e simplesmente fugir não fará com que melhore. Precisamos passar por alguns processos emocionais para que ocorra nosso crescimento, pessoal e profissional.

A notícia boa é que esse quadro vai se atenuando com o passar dos dias e a vida vai retomando seu ritmo normal.
“Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa” (Martha Medeiros). É um conjunto de sintomas que se tornam mais intensos à medida que a doença progride, caso não tenha uma intervenção. Se essa sua tristeza pelo trabalho está te deixando com autoestima baixa, apático, humor deprimido, ataques de pânico, fome em excesso ou perda de apetite, com sono em excesso ou falta dele, pensamentos negativos e falta de prazer pela vida, está mais do que na hora de você procurar uma ajuda médica. Isso não é fraqueza, isso fará parte de sua sobrevivência.

NÃO HAJA DE MÁ FÉ (Deus ‘tá’ vendo, acreditando nele, ou não!)
Sabemos também que é uma linha tênue entre ter realmente a depressão e se utilizar do artificio dela indevidamente. Já tive em minha equipe, alguém que não queria assumir que estava insatisfeita não só com a empresa, mas consigo mesma e, por não ter a coragem de tomar uma decisão de saída por conta própria, me informou que preferia se afastar pelo INSS sob o argumento de depressão, mesmo não a tendo.

Além disso, incentivou outra colega de trabalho a fazer a mesma coisa, afinal, era muito fácil conseguir um atestado de depressão prescrito por um médico que conhecia. Hoje, uma delas de fato está em estado depressivo por não ter conseguido mais voltar ao mercado de trabalho com o cargo e o salário que tinha antes.

Não use de má fé junto a outras pessoas, junto ao RH da sua empresa. Não se prejudique profissionalmente. 

Há alguns profissionais da saúde que tem o estereótipo de que algumas funções e áreas de atuação são um ambiente de estresse e sem fazer as devidas análises, solicitações de exames e acompanhamentos, já prescrevem o diagnóstico como sendo de depressão. Isso pode ser interessante para o paciente a curto prazo, mas a longo prazo, pode ser prejudicial.

CADA QUAL COM SEU PAPEL
Estamos tão ocupados com nossa própria sobrevivência que pensar no que realmente aflige outra pessoa parece uma perda de tempo, por isso, a palavra de ordem precisa ser Empatia!

Precisamos nos colocar no lugar do outro por alguns instantes e estarmos preparados, talvez doa!

  • Para você que se sente deprimido:
    “O tempo é o melhor autor; sempre encontra um final perfeito. ” – Charles Chaplin
    Se estiver sentindo vários sintomas mencionados acima, procure ajuda médica, quanto antes melhor! Você precisa de acompanhamentos e provavelmente tomar algum remédio. Se possível, desabafe com alguém em quem confia. Quando colocamos para fora o que sentimos, parece que fica mais fácil.
    Tente buscar forças para identificar novas situações que te faça feliz. O trabalho é de extrema importância para nosso desenvolvimento e é o que de fato nos sustenta, mas não jogue toda sua expectativa nele. Seu gestor ou colega de trabalho podem cometer falhas, assim como nós a cometemos, e às vezes, sem perceber. Antes que o outro te reconheça, você tem que fazer isso consigo mesmo.
  • Para você que é colega de trabalho
    “Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegura o ensejo de trabalho, que dê futuro a juventude e segurança à velhice. ”  - Charles Chaplin
    As pessoas em depressão, em sua maioria, sentem-se envergonhadas e constrangidas pela sua condição, fazendo com que a doença adquira um tom silencioso, portanto, seja gentil e generoso. Todo mundo está passando por alguma batalha e isso nos inclui. Precisamos ter a consciência da delicadeza da situação. Pode ter certeza que essa é a melhor ajuda que você pode dar!
  • Para você que é Gestor
    “Não sois máquina! Homem é que sois” – Charles Chaplin
    Seu papel é fundamental para identificar e auxiliar pessoas de sua equipe que estejam passando pelo processo da depressão. Você só conseguirá fazer isso a medida que você se prontifique a conhecê-las de verdade, assim saberá identificar quem tem problema de postura ou quem realmente está deprimido.
    Não faça pré-julgamentos. Não assuma metas impossíveis de serem atingidas, sobrecarregando sua equipe. Eles conseguem atingir, 1,2, 3 meses, mas depois, vão se ausentando e ficando frágeis e possivelmente não com a mesma qualidade.
    Seu papel enquanto gestor não é só atingir as metas da empresa, mas também de cuidar de cada um que está sob o seu comando. Os bons resultados andam de mãos dadas com os bons relacionamentos, cuide deles.
  • Para você, empresa
    “Mais que máquinas, precisamos de humanidade” – Charles Chaplin
    Em minha vivência cotidiana, antes como colaboradora dentro de empresas e agora fora delas, mas como consultoria, muitas vezes percebo uma certa inabilidade por parte do RH quando se trata de assuntos pertinentes ao relacionamento entre pessoas, seja da mesma hierarquia ou entre líderes x liderados.

Acredito que em alguns casos isso ocorra por não estarem totalmente capacitados para lidarem com essa situação, que de fato é complexa e acima de tudo misteriosa, pois estamos lidando com o lado humano do ser.

Por isso, é de extrema importância que o RH tenha cada vez mais profissionais qualificados para identificar, através de ferramentas pertinentes e acompanhamentos necessários, quem são as pessoas que se encontram nessa situação e as principais causas, só assim, conseguirão fazer um plano de ação para auxiliarem a empresa como um todo.

Além disso, é necessário oferecer, principalmente aos gestores, treinamentos que os desenvolvam cada vez mais no conhecimento humano.  Precisam saber atingir as metas da melhor maneira possível e isso inclui conhecer e servir sua equipe, também a si próprio.

Por mais treinamentos que já tenham tido é sempre necessário reviver em cada um a necessidade de se desenvolverem cada vez mais enquanto líderes. É como os pais que educam seus filhos repetidamente sobre o mesmo assunto, até isso fazer parte da rotina deles.

Nenhum custo será tão alto a empresa quanto o absenteísmo, a alta rotatividade e a insatisfação dos profissionais consigo mesmo ou com seus líderes. Isso reflete diretamente em seu cliente interno bem como no cliente final.

 “ Resta-nos manter o respeito e a empatia com as dores de nossos semelhantes. Embora o sofrimento seja individual, quando vemos alguém sofrer, parte de nós sofre também. E é essa capacidade que temos de ser tocados pelo outro que nos faz ser humanos de verdade. Socorrer e ajudar alguém em sua dor talvez seja uma das mais lindas faces do amor e somente ele nos conduzirá pelo caminho certo rumo ao conhecimento. ” Ana Beatriz Barbosa em seu livro Mentes Depressivas.

Grupos de apoio
http://www.abrata.org.br/new/agenda.aspx
http://www.semtranstorno.com.br/atendimentos-psicologicos-e-psiquiatricos-gratuitos-ou-de-baixo-custo/

Referências
SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Depressivas: as três dimensões da doença do século. São Paulo: Pricipium, 2016
DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo de Psicopatologia do Trabalho. São Paulo: Cortez, 1998.
GOLEMAN, Daniel. “A rising cost of modernity:depression”. New York Times, 8 dez.1992
OMS Brasil (Organização Mundial da Saúde) via site

Andréa Guedes é consultora de RH e proprietária da Tárin

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